sábado, 12 de junho de 2010

Estepe.


"Apesar de soar isso sim egoísmo, não deixo de me ouvir dizendo que quem gosta sente é o desespero pra agradar e ser gostado. A urgência de mostrar ao invés de assistir. A pressa em dar ao invés dessa receptividade toda tão corajosa em acomodar." Tati Bernardi

O dia hoje é frio, teu olhar é frio e sua voz parece quase não sair, congelada.
Até algum tempo você já era meu marido, com nosso filho que estava pra chegar da escola, com o jantar especial que fiz porque o trabalho hoje estava tranquilo e consegui sair mais cedo, com o jogo de quarta-feira, com o vinho e o macarrão e o beijo de boa noite e o "bom dia" de bom dia. Até estes dias eu era "eu e você" num futuro, ainda que distante, bonito.
Hoje, como quem não quer nada, você acordou um estepe de bicicleta. Provavelmente pelo dia de frio, ou pela necessidade de eu te colocar num lugar onde eu quase nem enxergue, pra que eu possa achar que o frio que eu sinto é só do tempo. Ou ainda, pela convicção de que não é.
Você estava ali ao meu lado sem pensar em absolutamente nada (porque você nunca está em pensando mesmo) e eu já estava arquitetando qual seria meu próximo marido, ainda que nosso casamento tenha sido apenas no plano das idéias eu estava te colocando chifres naquele exato momento. De repente percebi que aquele casamento da maneira que eu tinha imaginado havia se tornado uma pedra de gelo e antes que ela derretesse e eu só pudesse ficar vendo triste tudo se desfazer na minha frente, resolvi substituir logo o tudo que virou nada e você teima que temos. Mas nem é de verdade.
Um estepe porque não tenho mais a coragem que tinha antes. Com os tombos aprendi a ter medo de andar de bicicleta com o pneu murcho sem nenhuma garantia, então levo sempre um estepe pendurado nas minhas costas. Ainda que o peso do estepe pendurado a faça doer um pouco, como quem diz que algo está errado, pelo menos não tenho a insegurança de que posso cair e me machucar se não tiver você por perto. Mas meu andar de bicicleta contigo enrolado no meu pescoço é feito bem devagarzinho para que eu vá por aí analisando se não encontro outra bicicleta com o pneu cheio pra assim eu trocar o pacote inteiro e me livrar de uma vez por todas do peso de segurança que você faz sobre minhas costas.
Enquanto não encontro quem realmente vai me levar pra passear por aí  e esquentar meu coração, deixo você de estepe, ainda que pesando em minhas costas e gelando meus pés. É o castigo por não ter nunca aprendido amar e, sendo assim, achar que não cair de alguma altura muito alta já é o bastante.


"En fait, elle est um peu lâche" - Amelie Poulain