sábado, 25 de outubro de 2014

Cuspe e sorriso.

(escrito em 17/10/2013)

Sou assim mesmo, sou destas de querer viver um grande e perdido caso de amor, mesmo naqueles que são muito mais perdidos do que grandes. Imagino mesmo como você ficaria de fraque me esperando e em qual lugar combinaria mais o nosso casamento, contudo, acredite, da mesma forma que imagino nosso casamento hoje, estarei imaginando outro amanhã, pois não é você que está no centro de tudo, sou eu... e no máximo o lindo casamento (também não pelo casamento em si, mas pelo grande evento do qual eu serei o centro), é quase um romantismo as avessas que não seria tão as avessas assim se fosse você o cara certo.
Tenho sede por viver tudo, e não poderia viver tudo com uma única pessoa, pois não existe alguém com um amor tão grande e majestoso como eu espero, então tenho este compromisso com minha felicidade de dividir os meus sentimentos em pequenos potes e sair distribuindo. Acredite este amor louco e devastador que você viu em mim, é apenas um pequeno pote que destinei a você. Se este pouquinho já te assusta, meu filho é melhor você cair fora mesmo, pois não sei ser menos, meu compromisso é com o exagero.
Então, como você me pareceu um bom moço, tem beijo gostoso e parece ser um pouco sincero, destinei a você uma linda lágrima ontem à noite, apenas uma, mas considere como um presente bem bonito, como uma bela caixa vazia com um laço gigante fechando-a. Não se entristeça ao abrir a caixa e perceber que não tem nada, pois no vazio também existe memória, e quero te deixar com todas elas, já que eu, por sorte, tenho amnésias.

Aliás, nem sei o que houve entre mim e você, em que momento me desconcentrei e te perdi de vista, mas deixo esta carta quase meio sem jeito e sem razões, apenas com boas lembranças e um até logo, porque sou destas que depois de um pouco de sofrimento consegue cuspir e sorrir na mesma frase e ainda assim provocar encanto, espero!

Encontros...


(escrito em 19/10/2013)

Dois desconhecidos, meia duzia de palavras ditas por outro, umas linhas despretensiosas de escrita, oito horas da manhã, milhões de carros na Paulista, um friozinho delicioso de calor, coração batendo acelerado... oi!
Nunca sei como conhecer alguém, sou tímida, então como estava atrasada pro nosso café da manhã (que tipo de primeiro encontro é feito numa padaria? coisas paulistanas) eu apenas pulei na sua frente e dei um semi-soco na sua barriga como se já fossemos amigos de longo data. Eu sei, não fez sentido mas você estava lendo, encostado na parede concentrado e eu que era menos interessante que aquela revista, tinha que chamar atenção. Ou talvez até mesmo você estivesse lendo pra diminuir a ansiedade de uma estranha vindo em sua direção. Não sei, não sou boa pra entender desconhecidos. Não quis perguntar pra não parecer desconhecida demais.
Não, não foi bem assim, na verdade foi antes. Te vi através de um vidro enquanto conversava sei lá o que com outra pessoa e fiquei ali olhando, você me olhou com expressão de "será que conheço esta menina... não lembro". Não, você não conhecia, eu não conhecia, ou talvez nós dois nos conhecêssemos, sei lá da onde.
Também não foi só isto, teve aquele vez em que você me viu através de outro alguém e ficou curioso sobre a pequena foto que estava ali estampada e quis saber um pouquinho mais, infelizmente as recomendações não eram tão claras e te confundiu, achou que me conhecesse e depois viu que não, malditas pessoas que não seguem suas primeiras intuições.
Voltando à padaria, nada poderia ser tão frustrante como ter um primeiro encontro numa padaria lotada com gente falando alto e a Ana Maria Braga na televisão, mas você sabia onde estava, adoro quando as pessoas são donas dos espaços que eu não sou, e você era, então estávamos alí em outro ambiente da padaria, calmamente pegando nosso café da manhã. Dois meios morangos, um pedaço de kiwi, dois pães de queijo, um sonho e um café. Eu sei, meu prato não tinha o minimo sentido, mas compreenda, eu nem sabia o que estava fazendo alí, me admira não ter deixado tudo cair. Seu prato, ao contrário, era incrível. Sou tão menina. Talvez isto tenha te feito o homem que levanta para pegar meu suco de laranja e como num passe de mágica pega minha comanda ao se levantar, não sei, mas qualquer coisa que fosse diferente da minha ogrisse alí me encantaria, então me encantou, e me fez querer mais, querer saber mais deste homem com sorriso de timidez e de malícia, de querer e talvez não. Por favor, diga que é querer sim!

Caiu!


(escrito em 31/08/2013)

Ausência de culpa?
Será que você escutou?
Será que percebeu que é isto que restou em mim?
A culpa é tão grande e cada vez aumenta mais,
sempre quando você me diz todos os meus defeitos, e joga bem alto tudo pra dentro.
Eu sei que fui a ferida e também a flecha.
Sei que fui a causa e a testemunha
Mas o que você poderia esperar
de alguem que, num ato de coragem, quis fechar os olhos durante a queda?
Caiu.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Já é....


"Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você."

Acordo antes, fico te olhando dormir tão a vontade na minha cama, quietinho. Volto a dormir quietinha. Acordo depois e você acordou antes. Voltamos a dormir juntos, quietinhos.
Ontem não estávamos nada quietinhos, contudo tínhamos silêncios oportunos, que falavam tão alto como um grito. Ah... as entrelinhas:
- Gostou de hoje?
- Gostei, gosto de ficar aqui!
- Você estava bem fofo, achei até que ia me pedir em namoro hoje.
- Sério?
- Sim ué...
(Pausa)
- Apesar que tem coisas que nem precisam de pedido, já é...
- Precisa sim, pra isto precisa.
(Pausa)
- Se tivesse pedido, você teria aceitado?
(Pausa)
- Não vou responder isto, está achando que será assim fácil é? (Pausa)  Agora não, não assim, aqui...
(Pausa)
- Linda!
Agora aqui sozinha, pensando, é obvio que eu teria dito sim, teria sido um péssimo momento, teria sido nada grandioso, nenhum evento, nada demais. Mas teria sido, talvez, do nosso jeito, meio torto, meio “já está acontecendo”.
Talvez já esteja acontecendo a partir do momento que a família inteira dele pergunta de mim e me conhece, ou quando nossos amigos já conhecem um ao outro, ou porque ele vem em casa trazendo a carne moída pro molho e leva uma caixa de leite (porque sei que o dele acabou e ele não terá tempo de passar no supermercado, já que está atrasado uma hora pro trabalho pois não conseguia desgrudar), ou porque o levo até a porta e percebemos que estava dormindo com uma camiseta que ele me emprestou há três meses e ele nem sabia que estava comigo, diz que posso ficar com ela, ou ainda talvez seja por conversarmos o dia inteiro e compartilharmos todos os problemas e sonhos.
As vezes, queremos rótulos, queremos um contrato de relacionamento, um status em rede social, um pedido oficial e não reparamos o quanto já somos um do outro. A noção do pertencer é dolorida, dá medo, gera necessidade da perfeição. E existe coisa mais perfeita do que acordar um dia e perceber que “já está acontecendo”, de forma tão natural e óbvia que você nem precisa dizer sim, “já é!”





quarta-feira, 2 de julho de 2014

E isto basta!


Você volta do supermercado e, ao entrar em seu prédio, a porta do hall está fechada, cheia de sacola você experimenta fazer um contorcionismo para conseguir pegar a chave correta, nisto um senhor de mais de cinquenta anos está vindo em sua direção e grita "deixa que eu abro", você sorri, ele abre, também abre a porta do elevador e comenta que tinha ido a padaria buscar pão pois amanhã acorda cedo e tem que deixar pão para a empregada. Até aí parece uma cena comum e nada perturbadora, certo? Sim, se você é uma pessoa que não pensa demais. Para alguém como eu, isto faz parecer que seu ultimo relacionamento amoroso é um tremendo desastre.
Ele, cara três anos mais novo que você, demorou um tempo para conseguir te convencer que ele te levava a sério, que você não era apenas mais uma. Mesmo após você ter tentado terminar tudo três vezes pois estava se envolvendo e não queria, este homem segurou suas mãos, enxugou suas lágrimas e te convenceu que estava junto, que não ia te deixar partir.
Do mais, ele é engraçado, bonito, tem uma família linda, e um par de olhos verdes incríveis. Isto deveria bastar, basta pra tanta gente. Ele te pega em casa, te leva pra jantar (dividindo a conta obvio, pois ele é legal mas não aceita machismos), dorme de conchinha e adora fazer carinho, Isto deveria bastar, basta pra tanta gente. Quando seu carro deu problema, ele disse que tinha um bom mecânico e que iria lá contigo se você quisesse, e foi, conversou com o mecânico sobre aquelas coisas chatas e resolveu tudo. Isto deveria bastar, basta pra tanta gente.
Mas de repente, entre o 1º e o 7º andar, você percebe que ele nunca comprou pão pro seu café da manhã, sabendo que no outro dia você acordaria em seu apartamento, ele nunca abriu a porta e que a ultima mensagem dele no celular foi um "ok". E que se a empregada daquele simpático senhor do 1º andar, merece que ele saia de sua casa as 18 horas pra comprar um pão para ela ter o que comer no outro dia, você também deveria merecer, que talvez você mereça que a porta seja aberta e a conta paga (não sempre, pois você também não é machista), você percebe que merece uma mensagem carinhosa de despedida ou de bom dia, você merece aquilo que vai além do que basta pra maioria. Simplesmente, porque você não é qualquer uma, e isto basta!