sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Já é....


"Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você."

Acordo antes, fico te olhando dormir tão a vontade na minha cama, quietinho. Volto a dormir quietinha. Acordo depois e você acordou antes. Voltamos a dormir juntos, quietinhos.
Ontem não estávamos nada quietinhos, contudo tínhamos silêncios oportunos, que falavam tão alto como um grito. Ah... as entrelinhas:
- Gostou de hoje?
- Gostei, gosto de ficar aqui!
- Você estava bem fofo, achei até que ia me pedir em namoro hoje.
- Sério?
- Sim ué...
(Pausa)
- Apesar que tem coisas que nem precisam de pedido, já é...
- Precisa sim, pra isto precisa.
(Pausa)
- Se tivesse pedido, você teria aceitado?
(Pausa)
- Não vou responder isto, está achando que será assim fácil é? (Pausa)  Agora não, não assim, aqui...
(Pausa)
- Linda!
Agora aqui sozinha, pensando, é obvio que eu teria dito sim, teria sido um péssimo momento, teria sido nada grandioso, nenhum evento, nada demais. Mas teria sido, talvez, do nosso jeito, meio torto, meio “já está acontecendo”.
Talvez já esteja acontecendo a partir do momento que a família inteira dele pergunta de mim e me conhece, ou quando nossos amigos já conhecem um ao outro, ou porque ele vem em casa trazendo a carne moída pro molho e leva uma caixa de leite (porque sei que o dele acabou e ele não terá tempo de passar no supermercado, já que está atrasado uma hora pro trabalho pois não conseguia desgrudar), ou porque o levo até a porta e percebemos que estava dormindo com uma camiseta que ele me emprestou há três meses e ele nem sabia que estava comigo, diz que posso ficar com ela, ou ainda talvez seja por conversarmos o dia inteiro e compartilharmos todos os problemas e sonhos.
As vezes, queremos rótulos, queremos um contrato de relacionamento, um status em rede social, um pedido oficial e não reparamos o quanto já somos um do outro. A noção do pertencer é dolorida, dá medo, gera necessidade da perfeição. E existe coisa mais perfeita do que acordar um dia e perceber que “já está acontecendo”, de forma tão natural e óbvia que você nem precisa dizer sim, “já é!”





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