
O palco é grande e tem milhares de holofotes que apontam pro centro do palco e eu nunca estou ali, sempre estou controlando a iluminação ou fazendo algum outro tipo de serviço que é destinado pra quem não tem tanto brilho assim.
Desde pequena me sinto como se tivesse nascido no momento errado, como se eu sempre estivesse entrando em cena quando os holofotes ja se apagaram, quando a plateia ja se retirou e tudo o que resta é olhar as cadeiras e sonhar com o momento da grande estreia, que nunca chega. Meus pais sempre fazem questão de contar que quando nasci chorava demais porque tinha um problema de saude (que nunca me atento em saber o que era, e me concentro nas consequencias do meu choro), acontece que todo o meu choro e atenção que eu precisava fez com que quase meus pais se separassem, eu tornava a vida deles uma verdadeira tragedia doméstica. Então desde la venho tentando fazer tudo certo e ser sempre grande, grande de uma forma que nunca é o suficiente, que nunca me satisfaz.
Acontece que nunca sou a mais bonita, a mais inteligente, a mais gentil, nunca sou a mais em nada, sou sempre a coadjuvante que se contenta em ser engraçada pra poder distrair a atençao das pessoas e elas não perceberem toda esta incompetencia pra conseguir o que quer.
Sempre estou no lugar errado e no momento errado, um grande patinho feio que só não é desprezado porque faz as pessoas rirem, e elas gostam de rir. Mas dentro é como se eu tivesse sempre sozinha, sempre intrusa, sempre querendo mais e fracassando.
Pra mim, aos 25 eu seria incrivelmente bem sucedida, e eu entraria num banco com meu vestido florido, salto alto e um corpo perfeito, e todos os olhares viriam em minha direção. Era esta a imagem que tinha de mim aos 25 e não de alguem que sorri o tempo todo pra tentar a todo momento enganar as pessoas sobre este sucesso fantasiado.
Acontece que eu nunca sou a princesa escolhida do baile, nunca sou a estrela que recebe mais palmas no final da peça, nunca sou a filha que os pais querem companhia, nunca sou a que mais recebe olhares, nunca sou a que tiro a sorte grande. Sou sim a que esquece, que chora na balada, que fica trancada no quarto, que prefere ficar longe quando tá triste, que não consegue gritar com as pessoas, a que treme quando tem que discutir por algo, sou sempre a que posa de alguem muito mais confiante e brilhante, mas que por dentro continua sendo sempre o mesmo patinho feio que se punha de castigo no quarto quando criança e que chorava escondido no banheiro pra que ninguem soubesse que ela também se feria, afinal já havia chorado tanto quanto criança, não queria dar mais trabalho.
Então estou sempre colocando a minha felicidade nas mãos do cavaleiro que um dia chegará e me transformará na dama imponente que sempre fui, estou sempre colocando a felicidade nas mãos de algo que chegará e mudará tudo, na viagem dos sonhos, no grande convite, na oportunidade de ouro que cairá do céu... mas nunca chega, e eu continuo aqui nadando no lago tentando disfarçar a minha feiura pros outros patos, tentando ser aceita. Continuo manipulando a mesa de iluminação só pra aprender os lugares mais iluminados do palco, me preparando pra hora de brilhar, continuo nos bastidores como a criança que tinha expectativas, e enquanto não chega vou prolongando a data, vou me enganando pra tentar ser feliz 'apesar de'.
"Stupid girl, I should've known
I should've known
I'm not a princess, this ain't a fairytale
I'm not the one you'll sweep off her feet
Lead her up the stairwell
This ain't hollywood, this is a small town
I was a dreamer before you went and let me down
Now it's too late for you and your white horse
to come around"
to come around"
(White Horse - Taylor Swift)
Nenhum comentário:
Postar um comentário